sexualidade e emoções

A Arte Erótica, a Fantasia e o Desejo Sexual PDF Imprimir E-mail

O sujeito amoroso vive a sexualidade no real de seu corpo e para além dele. Na
busca amorosa sexual que faz, ele depara-se com dimensões outras que integram sua
experiência humana e sexual: as normas da cultura, o simbólico da linguagem, a sedução,
a fantasia, o olhar do outro.

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Na vivência do prazer, a arte erótica, a fantasia, a sedução, o
desejo têm lugar central. Nesse movimento de encontrar e partilhar a sexualidade com
alguém reafirma-se o quanto se necessita das referências simbólicas que possibilitam
transportar nossa experiência para além do real do corpo que somos. A cultura normatiza
as vivências sexuais mas também cria condições mais encantadas e fantasiosas aos
apelos do desejo humano.

A vida em nós procede da suposta amorosidade entre dois seres humanos, o que é
um belo começo. Somos síntese, fruto da partilha amorosa de seres que se atraem, se
juntam e se desdobram noutro ser. Mitologicamente falando, seríamos filhos de Eros, o
deus grego do amor, da Afrodisia, que nos tempos primitivos, era considerada um dos
grandes princípios do universo. Eros representava a força poderosa que faria todos os
seres se atraírem uns pelos outros e por ele nasceriam e se perpetuariam as raças.

Segundo a Mitologia, Vênus, mãe de Eros, preocupava-se, porque ele não crescia.
Como permanecia menino, ela perguntou a Têmis a razão disso. O menino – respondeu
Têmis – só cresceria quando tivesse uma companhia que o amasse. Vênus, então, deu ao
filho por amigo Anteros e observou que, quando eles ficavam juntos. Eros crescia, mas
voltava a ser menino depois que Anteros o deixava. O mito faz essa narrativa e conclui: “É
uma alegoria cujo sentido é que o afeto necessita de ser correspondido para desenvolver-
se.” (MÉNARD, 1991, p. 10).

Um dos sentidos do termo erótico provém de Eros, esse deus grego do amor, que
só cresce quando o afeto é correspondido. O erótico não se confunde com o amoroso,
embora ambos tenham por tema comum o amor. Mas, qual o sentido da erótica? O que
ela acresce ao sexual? Possibilita, de certo, deter a velocidade do tempo para que não se
apaguem os laços, os traços do já vivido, pois o instante de prazer é muito fugaz.

Visto nessa ótica de deter a velocidade do prazer final, a fim de não consumi-lo
rapidamente – pelo contrário, degustá-lo – o termo erótico nos remete a uma nova forma
de compreensão. O termo aloja-se na cultura, como algo da ordem do revelado, do
mostrado, do exposto, do realizável imediatamente. Mas o mito de Eros destaca a ideia de
que o amor cresce em companhia, em troca, ou cumplicidade. Razão por que, o erótico é
algo que acontece entre duas pessoas, quer em breve passagem, em relação demorada,
mas em troca cúmplice e velada. No “entre” duas pessoas é que o erótico se manifesta –
vertente, de certo modo, silenciosa, discreta, inquieta e atuante. Por que falamos de arte e
erótica? Porque o sexo simplesmente não nos basta, e não nos basta porque somo o real
do corpo mas também o mais além dele, ou seja, linguagem e cultura. A sexualidade está
nesse entrelace: do real do corpo, do simbólico da linguagem e do imaginário da cultura.

A erótica é uma dimensão da experiência sexual que supõe estética e ela se
manifesta pela palavra, olhar, arte, mistério, gesto, risco, beleza, esperteza. Estudando a
imaginação erótica, Stoller (1998, p. 60) se diz esteta e descreve assim a construção da
excitação erótica: “[...] é toda ela tão sutil, complexa, inspirada, profunda, fluida,
fascinante, aterradora, problemática, imersa no inconsciente e assombrada pelo gênio
quanto a criação de sonhos ou arte”. A excitação daí procedente é vista como uma tensão

dinâmica, que ainda não é prazer, satisfação, um final, uma resolução, “mas sim
antecipação, uma provocação, uma miríade de possibilidades” (idem, p. 66).

Estética e erotismo constituem criações “cujo propósito é embaçar ou evitar a
realidade simulando algum aspecto da realidade, inclusive a realidade psíquica, tal como
as emoções” (STOLLER 1998, p. 67). A excitação é um tatear. É incerteza, é percurso.
Por isso, simulação torna-se aqui palavra crucial, porque “Realidade demais é exatamente
demais” (idem, p. 67). Quando podemos controlar essa dosagem, fazer o roteiro, dirigir a
representação, o campo da excitação fica preparado. Para a maioria de nós, a realidade
sem adornos seria muito agressiva. “Somente uma aproximação com rodeios é possível
[...] os devaneios funcionam no sentido de alterar a realidade” (idem, p. 73). Tais rodeios
podem ser fonte de arte, porque a estética aí funciona também como um jogo. Existem
poucas verdades eternas na arte ou no erotismo, pois tudo depende da interpretação – de
certo modo, é uma questão de opinião. Mas, tal qual um enredo de peça teatral, cada
detalhe conta.

Georges Bataille (1987) fala do erotismo como atividade diferencialmente humana –
um fato de cultura , portanto, – que não se preocupa apenas com o prazer em si e
também não faz parte da experiência animal. O autor chama a atenção para o fato de que
curiosamente se estimula bastante o prazer não na liberdade de persegui-lo, mas no
interdito de fazê-lo. Ele lembra que o interdito sempre andou de mãos dadas com a
transgressão – é o conhecido gosto do proibido. É esse interdito que cria o desejo e
constitui também a essência do erotismo.

Segundo o mesmo autor, o erotismo está presente tanto nos corpos quanto nos
corações e até no sagrado.

[...] O erotismo dos corpos tem algo de pesado, de sinistro... O erotismo dos
corações é mais livre. Ele se separa na aparência, da materialidade do erotismo
dos corpos, mas dele procede, não passando, com frequência, de um seu
aspecto estabilizado pela afeição recíproca dos amantes (BATAILLE, 1987, p.
18).

Como se define o erotismo pelo secreto, ele não pode ser público e talvez gere
certa solidão. “A experiência erótica se situa fora da vida ordinária” (idem, p. 234), e
produz em nós emoção muito intensa. “Talvez seja vizinha da santidade” (idem, p. 235),
explica ele. Um exemplo por ele citado são os arroubos místicos descritos por Santa
Tereza D’Ávila os quais são de grande riqueza erótica, mas neles predominam as
metáforas:

[...] Eu vi então que ele tinha uma longa lança de ouro, cuja ponta parecia
de fogo e senti como se ele a enterrasse várias vezes em meu coração,
transpassando-se até minhas entranhas. Quando a retirava, parecia também
arrancá-las e me deixava esbraseada do grande amor de Deus. A dor era
tão grande que me fazia gemer e, no entanto a doçura dessa dor excessiva
era tal que eu não podia querer livrar-me dela (BATAILLE, 1987, p. 210)

Essa descrição exprime uma experiência em tudo semelhante a uma relação
sexual muito prazerosa. As imagens da “longa lança de ouro”, da “ponta que parecia
fogo”, “como se ela entrasse várias vezes em mim”, “transpassando até minhas
entranhas”, são metáforas de todo o gestual de uma intensa relação sexual. Quem pode
negar o ardor desse prazer? Contudo, há pensadores que concebem esses tipos de
experiências místicas como sexualidade transferida, logo conduta neurótica. De fato, a

incapacidade de experienciar isso no real do corpo e no ser que se é, talvez indique uma
inadequação que convém levar em conta em termos da busca de ser feliz sexualmente.

O corpo sexual é atravessado pelo simbólico da linguagem, o que nos possibilita
subverter a ordem estabelecida pelo biológico, adiar a satisfação, deter o tempo, ruminar,
saborear, dar sentido ao vivido. A linguagem entranhada no corpo instaura um debate
silencioso de desejos disfarçadamente encantados. “Nessa intenção sempre adiada, brota
o desejo”, acredita Chalhub (1993, p. 17). A imaginação produz esse efeito. Uma fluência
verbal produz-se no silêncio e nele pode acontecer a fisgada do desejo. Também segundo
Octávio Paz (1994, p. 12), a imaginação move o ato erótico e o poético: [...] “a poesia
erotiza a linguagem e o mundo porque ela própria, em seu modo de operação, já é
erotismo.”

No ser humano, nada determina que a sexualidade seja apenas ação do corpo. No
entrelace do corpo, com a linguagem e a cultura, descobre-se a dimensão lúdica, a
vontade de prazer; aí já não precisamos transar apenas para procriar, mas também para
viver o prazer, encontrar alguém, amar, brincar a vida. O erótico se situa na vertente do
incerto, do silencioso, do brincante e até do misterioso. O outro é imprevisível, difícil de
aprender, de segurar, de conter, mas atrai exatamente onde nos escapa.

A alma é erótica, no entender de Adélia Prado (1991, p. 201), mas ela queixa-se
quando isso lhe escapa: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho Pedro, vejo
pedra mesmo...”. Pelo exposto, o corpo do desejo não é tão óbvio assim: é lugar de
deciframentos, porque o erótico tem alma, tem mistério. “O homem é o único ser vivo que
não dispõe de uma regulação fisiológica e automática de sua sexualidade”, confirma
Octávio Paz (1994, p. 16). Qualquer aderência ao real do corpo como única forma de viver
a sexualidade nos faria perdidos de nossas potencialidades eróticas.

Buscamos fora um objeto para o desejo, mas esse objeto nos atrai na medida em
que responde à interioridade do desejo. Quando escolhemos o objeto, entra em jogo com
frequência, um aspecto indizível, não uma qualidade objetiva daquela pessoa, que talvez
não tivesse, se ela não nos tocasse o ser interior, nada que nos forçasse a escolhê-la
especialmente. “A escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade
interior, infinitamente complexa, que é típica do homem” diz Bataille (1987, p. 27). Nesse
contexto, o erotismo nos causa certo transtorno, porque coloca nosso ser em questão. O
animal também vive desequilíbrio diante do sexo, mas ele não sabe disso, porque não se
põe em questão. Nele nada acontece que se assemelhe a uma interrogação. Bataille
estabelece a diferença:

[...] se o erotismo é a atividade sexual dos homens, o é na medida em que ela
difere da dos animais. A atividade sexual dos homens não é necessariamente
erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente
animal. (BATAILLE, 1987, p. 28)

Embora o erotismo comece onde termina o animal, não há dúvida de que a
animalidade continua sendo seu fundamento. A sexualidade física está, de certo modo,
para o erotismo assim como o cérebro está para o pensamento: a fisiologia permanece o
fundamento objetivo do pensamento. Nessa metáfora, o erotismo é um desequilíbrio e,
que o próprio ser se põe, conscientemente, em questão. Ao questionar o sujeito se perde:
perda voluntária, flagrante, desconcertante, ninguém pode duvidar do que lhe aconteceu.
O erotismo tornou-o perdidamente tocado, escancaradamente atingido, visivelmente
fulminado, impactado, fora da normalidade de seu viver.
Só os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica. O erotismo

leva o ser humano, ao mesmo tempo, a ser social e humano, humano e animal, além de si
mesmo. O erótico reduzido à visão em que prevalece a explicitação constitui a base da
liberação. Mas é a libertação quem abre caminho para a percepção do sentido do
erotismo. Por vezes, confunde-se o erótico com o pornográfico, porém a diferença está
em que, enquanto o erótico se expande na criatividade, o pornográfico se esvazia em si
mesmo, na mostra repetitiva. O fato erótico é sutil, complexo, de certo modo misterioso;
induz a caminhos desconhecidos, novos, fascinantes e assustadores. Essa dimensão está
no homem, na interação de sua humanidade com sua animalidade.

Do erotismo, Bataille avança pela Filosofia e diz:

[...] somos essa abertura a todo possível, essa espera que nenhuma satisfação
material acalmará e que o jogo da linguagem não saberia iludir! Estamos à
procura de um ponto culminante... a humanidade toda aspira a esse ponto, que
ao ela o define, que só ela justifica e lhe dá sentido. (BATAILLE, 1987, p. 253).

Por fim – convém lembrar – não falamos de experiência interior e do erotismo
enquanto cientistas. Fazemos isso do lugar de seres pensantes, encantados e desejantes
que somos. Portanto, esta escrita não é científica, nem pretende sê-lo. Ela requer
comunhão do leitor, para a ressonância destas ideias.

A fantasia e a sedução

Fantasia é “Obra da imaginação”, diz o Aurélio. Fantasiar seria criar, imaginar,
idealizar. Uma relação já se percebe aqui entre fantasiar e idealizar. Como a fantasia é
sempre maior que a realidade, idealizamos, quase sempre, para além de nossas
possibilidades. Fantasiamos sobre aquilo que gostamos, que idealizamos e que nos falta.
Fantasiamos sobre aquilo que gostaríamos de que o outro adivinhasse para nós.
Fantasiamos o que vai mais fundo em nós, talvez o mais guardado, o mais proibido, o
mais desejável, o não dito, o inacessível. A fantasia – dizem – quebra a rotina, ou seja,
tira-nos do lugar comum, quem sabe? – conduz-nos a outras dimensões da vivência
habitual. É como se o princípio do prazer fizesse um pacto com o princípio da realidade e
dissesse: “Com licença, eu vou sonhar”. Aí se reconhecem não só os limites da realidade
mas também a concessão desta ao universo do desejo. A fantasia vem dizer que desejar
não é proibido; pelo contrário, trata-se de lei universal. Contudo, fantasiar pode induzir a
vôos para além do concebível à primeira vista. Há fantasias simples, sutis e outras muito
profundas. Com relação à da mulher, Juan Nasio (1997, p. 189) comenta: “Na fantasia da
mulher, o objeto mais precioso, o falo, é o amor que vem do amado, e não o próprio
amado. Assim, a angústia especificamente feminina é o medo de perder o amor e ver-se
abandonada”.

Um princípio de incerteza perpassa, assim, a sexualidade, a sedução, a fantasia, o
erótico. Fantasia e sedução não são da ordem da natureza, mas do artifício, do signo e do
ritual. As ações muito concretas no terreno do sexual se distanciam da fantasia e da
sedução, porque certo afastamento se faz necessário nesses jogos. No jogo da sedução,
a atração exerce, curiosamente, por certo afastamento – não se seduz o que já está à
mão. A propósito, o termo “sedução” provém de se-ducere, que significa “afastar”, “desviar
de seu caminho” - desvio do real do corpo – para dimensão mais próxima da fantasia. Há
uma soberania da sedução, que é paixão, jogo, estratégia de deslocamento.

A sedução pertence à ordem do artifício, do signo, do ritual, e os discursos ou
mostras excessivas constituem aí um desperdício. Começamos a seduzir quando o outro
se põe como nosso objeto de desejo, mas por vias indiretas, que lhe escapam. É nessa

escapada que o jogo seduz. “O que é despertado pela sedução, pelo palco onde ela é
encenada, é a fantasia”, diz Sibony (1991, p. 30). Segundo ele, a trajetória, toda
perpassada pela incerteza, envolve “[...] um jogo entre dois inconscientes, quando dois
discursos, enrolados um no outro e presos na espiral que os ultrapassa, encontram-se no
lugar comum de sua inconsciência” (idem, p. 27).

Na sedução não há anatomia, e sim ritual; seu papel é encantar a experiência
natural vivida no real do corpo. Seduzir chega ao limite do ritual, onde os atores parecem
não ter nada a ver com aquilo. Aí, desliza-se naturalmente da sedução para a fantasia.

Baudrillard também fala da sedução como uma espécie de inteligência, como uma
fulgurante evidência.

[...] não tem de se demonstrar, não tem em que se fundar – está imediatamente
ali, no avesso de qualquer pretensa profundidade do real, de qualquer
psicologia, de qualquer anatomia, de qualquer verdade, de qualquer poder. Ela
sabe – é seu segredo – que não há anatomia, que não há psicologia, que todos
os signos são reversíveis. (BAUDRILLARD, 1992, p. 15).

Ela não se prende a nenhuma território do saber convencional e difere do sexo, que
é uma função: “A sedução é da ordem do ritual, o sexo e o desejo são da ordem do
natural” (Baudrillard, 1992, p. 27). Nesse ritual, amar desafia o outro a amar de volta. Tudo
funciona secretamente no ato sedutor: “[...] eu sei o segredo do outro, mas não digo, e ele
sabe que eu sei, mas não levanta o véu; a intensidade entre os dois nada mais é que o
segredo do segredo” (idem, 1992, p. 90). A sedução ganha a forma de um enigma a
resolver

[...] a moça é um enigma e, para seduzi-la, é preciso tornar-se um outro
enigma para ela; é um duelo enigmático, e a sedução é sua resolução sem
que o segredo seja revelado. Descoberto o segredo, sua revelação seria a
sexualidade.

Contudo, é possível a morte da sedução sob a obrigação de circulação do sexo, do
valor mercantil dos corpos. “Em qualquer lugar onde o sexo se erige em função, em
instância autônoma, liquida-se a sedução” (BAUDRILLARD, 1992, p. 49). Aí ganha força a
economia do sexo – lugar, talvez, de seu desencantamento. Na contraface das
intensidades, Baudrillard (1992, p. 47) denuncia:

[...] Somos a cultura da ejaculação precoce. Cada vez mais, qualquer sedução,
qualquer forma de sedução, que é um processo altamente ritualizado, apaga-
se por trás do imperativo sexual naturalizado, por trás da realização imediata e
imperativa de um desejo.

Na nossa cultura, o sexual triunfou sobre a sedução e anexou-a como forma
subalterna, mas, na ordem simbólica, a sedução está lá primeiro, o sexo ocorre por
acréscimo. A sedução tem a força de um enigma a resolver – um duelo enigmático. Sua
revelação seria a sexualidade.

Desejo sexual. “O que será que será?”

[...] pois desde que te vejo por um instante, não me é mais possível articular uma
palavra: mas minha língua se quebra e um fogo sutil desliza de repente sob a
minha pele: meus olhos não têm olhar, meus ouvidos zumbem, o suor escorre
pelo meu corpo, um arrepio toma conta de mim; fico mais verde do que o capim,

e por pouco me sinto morrer. (SAFO apud BARTHES, 1989, p. 136).

Da Psicanálise à Literatura ou à Poética, tem-se mostrado o desejo como uma
espécie de hemorragia inestancável: “Eis o cansaço amoroso: uma fonte que não é
saciada, um amor escancarado” Barthes (1989, p. 137). Essa fome insaciável, esse
cansaço que não quer descanso, essa busca infindável é o desejo – algo que não se
satisfaz completamente e retorna sempre em sucessivas buscas tal qual canta Chico
Buarque:

“Que é feito uma aguardente que não sacia / Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar / Nem todos os unguentos vão aliviar

Esse desejo insaciável é desejo de quê? Tentando responder à questão, Garcia
Roza (1991, p. 190) oferece a seguinte compreensão: “O que o desejo humano deseja é
possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu
valor humano”. Nossa agonia reside no fato de que não temos nenhum poder sobre o
desejo do outro: ele nos deseja se o quiser; não lhe podemos impor isso por mais que o
desejemos. Pode-se, sim, seduzi-lo, convocá-lo a amar de volta. A ânsia que não
sossega, a agonia que nos possui é, no fundo, a ânsia de capturar o desejo do outro, a
vontade profunda de que o outro nos deseje. Nada nos acalma tanto quanto a percepção,
a certeza de sermos desejados pelo outro. Contudo, embora busquemos objetos capazes
de atender provisoriamente ao desejo, não queremos que este silencie; queremos, na
verdade, permanecer desejando.

Convivemos hoje com a deslocalização do desejo. A sexualidade liberada vem
sendo vivida sob a forma de consumo, como se fosse mercadoria. De um lado, o sexo
torna-se mercadoria; do outro, o comércio erotiza a mercadoria. A liberação sexual tem
servido, de certo modo, a uma forma de adaptação ao grande mercado. Observemos a
crítica de Guillebaud (1999, p. 110) “Ela ganha terreno mais facilmente, à medida em que
a própria linguagem erótica vai se vendo contaminada por um léxico de origem
econômica: performance, concorrência, consumo, avaliação comparativa, predominância
de curto prazo”. Tal deslocalização para o mercado de consumo mina as possibilidades
desejantes e amorosas. A perspectiva gradualmente se sedimenta em torno da
sexualidade e do prazer funcionais e obrigatórios, como se isso garantisse a felicidade do
sujeito sexual. A obrigação do prazer, do desempenho certeiro passou a integrar os
requisitos de boa reputação.

Verdadeira cambalhota simbólica realizou-se em três décadas. Deslizamos “[...] da
liberação à imposição, da permissividade conquistada à fruição obrigatória, da proibição à
corvéia [...]” diz Guillebaud (1999, p. 124). O dever do prazer não se torna aí uma nova
forma de coerção? A onipresença do sexo na vida social, no discurso público, na mídia,
não está também promovendo sua desvalorização? Um temor legítimo que perpassa a
escrita de estudiosos é o de se promover com isso um esvaziamento do próprio desejo.
Cresce, em nossos consultórios, a queixa da falta de interesse sexual. Que paradoxo: em
tempos de tanta exaltação do sexo, tanta queixa de falta de desejo! “Nossas sociedades
tão agressivamente erotizadas, estão, na realidade, assaltadas pela ansiedade do não
desejo”, explica Guillebaud (1999, p. 130). A recomendação contemporânea tem sido um
alerta para cuidarmos das fantasias como se cuida de um capital imaginário a ser
preservado. Hoje não se luta mais contra a repressão do desejo, e sim contra sua falência.

Reflexos sobre a vida sexual

Destituída da erótica, da fantasia e da sedução, a vida sexual levaria as pessoas
a “fazer sexo” mais do que “viver a sexualidade”. Isso parece proceder da ideia de que ter
muitas relações sexuais é um paradigma de normalidade, independentemente da
qualidade de tais relações. Importa saber e fazer os outros saberem que se mantêm
muitas relações sexuais – atitude triunfal ante o sexo, como se este fosse um troféu que
deve ser exibido. Bauman (2004, p. 13) critica a má qualidade daí proveniente: “Quando
se é traído pela qualidade, tende-se a buscar desforra na quantidade”. Nesses casos, a
salvação estaria na velocidade com que se buscam, se usam e se descartam as relações,
característica bem clara nos dias atuais. Com frequência, clientes chegam perturbados
por manterem pequeno número de relações sexuais. Poucos questionam, porém, a
qualidade delas. Então buscam técnicas e remédios que atuem rápido e lhes garantam
excitação, disposição, segurança, prazer e um número desejável de relações. Profunda
inquietação os sufoca muitas vezes, nessa ânsia de verem-se “normais sexualmente”,
mais do que saberem-se “felizes sexualmente”. O erotismo sucumbe a essa imposição do
desempenho. Curiosamente o desempenho pode acontecer naturalmente, se o erótico se
fizer presente na relação. O “fazer sexual” de forma empobrecida ofusca o “viver sexual” e
faz da relação apenas lugar de comprovação de desempenhos. Vigilante de sua
performance, o indivíduo pouco se entregará às sensações, ao prazer, ao encontro com o
outro.

A ânsia de fazer sexo leva a pessoa a distanciar-se da sedução. Sem fantasia, sem
sedução, a relação fica pobre, desprazerosa, talvez insustentável. “O importante não é
tanto que uma mão nos acaricie, mas saber a quem pertence essa mão, o que deseja
essa pessoa e o que sentimos por ela”, adverte Dorais (1994, p. 31). Há um sentido que
permeia o tocar e trocar com o outro as emoções promovidas pelo sexo. A tonalidade
encantada torna especial a relação e beneficia o desempenho. O desejo – esse
movimento encantado de captação do outro como parceiro de satisfação prazerosa – fica
ameaçado quando a preocupação maior se encontra em manter um nível de atuação
sexual mais marcado pelo fazer e o quanto fazer.

Um princípio de incerteza perpassa a erótica, a fantasia, a sedução, o desejo. Mas
crescemos na rigidez da busca da certeza, do indubitável sobre o sexo. Será o homem
contemporâneo capaz de tolerar a incerteza e dela fazer uma arte, um enigma sempre a
resolver, um passo de dança, de modo que a sexualidade se torne tarefa excitante,
incansável a ser inventada sempre, recomeçada sem perspectiva de silenciar-se ou deter-
se? Por aí, não buscaremos a sexualidade arrebatadora, mas abriremos caminhos para
sua vivência mais satisfatória, menos disfuncional.

Amparo Caridade
Psicóloga. Mestre em Antropologia. Professora Adjunta Universidade Católica de
Pernambuco (UNICAP). Vice presidente da SBRASH Biênio 2005-2007

 

 

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