sexualidade e emoções

Sexualidade Humana: Causas Sócio-Culturais das Disfunções Sexuais PDF Imprimir E-mail

As disfunções sexuais configuram-se como situações em que os componentes da
resposta sexual humana – desejo, excitação e orgasmo apresentam alguma alteração.
Especialistas nesse campo asseguram que, em geral, a causalidade das disfunções
sexuais é mista: bio-psicológica, bio-social, psico-social ou ainda, bio-psico-social.

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Por outro lado algumas vezes as disfunções sexuais podem ter causas inicialmente
identificadas como orgânicas e psicológicas e que no curso do seu desenvolvimento se
lhes acrescentam fatores sociais ou vice-versa.

Por uma lógica didática, neste artigo, procuramos dissociar as causas sócio-
culturais das biológicas e psicológicas, relacionando-as às fases da resposta sexual
humana.

Desde os primórdios da nossa cultura, a menina aprende, na família, que ser
mulher é saber cuidar de crianças, cozinhar, lavar, passar, cuidar da casa e do marido; ser
mulher é adotar a postura do servir, do submeter-se, do obedecer ao pai, irmão, marido,
etc.; é ser dependente, passiva, dócil, carinhosa, gentil, paciente, emotiva; é ser aquela
que saber agradar, e mais uma série interminável de “atributos” tidos como femininos. O
menino, por outro lado, aprende que ser homem é ter sob seu comando as experiências
dos outros, especialmente das mulheres, é poder tomar decisões por todo um grupamento
social como a família, é ser ativo, viril, corajoso, intransigente, etc.

Na escola, as primeiras concepções acerca do papel da mulher aprendidas no
âmbito familiar, são frequentemente reforçadas enquanto se processa a aquisição de
outros comportamentos e atitudes, resultando na incorporação, pelas meninas, da
concepção do ser mulher, traduzida como ser boa aluna, educada, obediente, sentimental,
frágil, aplicada e menos pragmática, facilmente conduzida por regras e normas, por isso,
mais afeita às ciências humanas, às letras e às artes. Nos meninos são encorajadas a
liderança, a criatividade, a praticidade e a ousadia, qualidades, dentre outras, requeridas
para profissões “ditas” masculinas como dirigente de empresas, construtores,
pesquisadores, etc.

Essa educação sexual que repousa num passado eminentemente patriarcal resulta
em concepção do ser homem e do ser mulher, da masculinidade e da feminilidade
definidas em oposição fundamental, uma espécie de tese e antítese. O ser homem implica
em ter como características: superioridade, poder, força, virilidade, atividade, potencial
para violência, uso legítimo da força e desempenho de atividades dirigidas para o mundo
social – política, economia, negócios. Ser mulher é ter associada as condições de
inferioridade e submissão em relação ao homem, de fraqueza, passividade, beleza,
docilidade, aprendizagem de barganhar e desempenho de atividades restritas ao mundo
privado – família, escola, serviços.

A construção social da condição masculina e da condição feminina também é efeito
da dominação simbólica, não expressa na lógica consciente, mas de modo subjacente,
nas práticas e categorias dicotômicas para homens e mulheres: seco-úmido, duro-macio,
claro-escuro, aparente-recôndito, alto-baixo, acima-abaixo são categorias de linguagem
aplicadas aos gêneros que se sustentam mutuamente e, embora concordantes, são
suficientemente divergentes para conferir valores a cada uma delas.

“Cada vez que um dominado emprega para se julgar uma das
categorias constitutivas da taxonomia dominante (por exemplo:
brilhante/esforçado, distinto/vulgar, único/comum, etc.) ele aplica a
si mesmo, sem o saber, o ponto de vista dominante, adotando, de
algum modo, para se avaliar, a lógica do preconceito desfavorável”.
(Bourdieu, 1995, p. 142-143).

Nessa ótica, a mulher introjeta a condição feminina impregnada de sentidos de
oposição na inferioridade e que envolvem a negação do masculino como sendo feminino,
enquanto que o homem introjeta o masculino como sinônimo de superioridade e poder.

“A rígida separação de gêneros representa uma ofuscação
ideológica daquilo que partilhamos. Dividir-nos contra é limitar
potenciais da expressão humana”. (Cornell e Thurschwell, 1990, p.
171).

Assim, construindo diferenças entre homens e mulheres e entre o feminino e o
masculino, a história de meninos e meninas segue caminhos diferentes que se cruzam,
determinados pelo meio e pela cultura, que apresenta peculiaridades que variam no
tempo e no espaço.

Numa perspectiva culturalista é possível vislumbrar que os constructos
relacionados ao ser mulher surgem em oposição ao significado do ser homem, numa
sociedade com esquemas de relacionamentos sociais bem definidos; são introjetadas nas
meninas e nos meninos, desde muito cedo, em diversos âmbitos de suas personalidades
e do seu ser social, as dicotomias associadas à divisão homem-mulher, tais como: caça,
coleta, dominação-submissão, luz-sombra, ciência-magia, razão-intuição, cultura-
natureza, força-fragilidade, para-fora-para-dentro, superioridade-inferioridade, produção-
reprodução, mundo público-mundo privado, de forma a tornar aparentemente natural, a
identidade que, às mulheres e aos homens foi socialmente imposta.

E essas construções sobre o ser homem e o ser mulher interferem diretamente em
suas vivências sexuais. A mulher pode inibir o seu desejo em consequência de ter
aprendido a ser passiva, paciente, obediente, não ousada. Pode, por outro lado, exacerbá-
lo como uma forma de quebrar drasticamente os padrões que lhe foram impostos. O
homem que aprendeu a ter o poder sobre a mulher, a mostrar-se viril, forte e sempre ativo
pode desenvolver erotomania ou, em menor escala, diante de pressões sociais maiores

que lhe façam sentir-se pequeno, fraco, sem poder manifestar inapetência sexual.

Quando punitiva e castradora, a educação sexual configura-se também como
inadequada, fazendo com que a pessoa desenvolva uma imagem errônea frente à
sexualidade. Se isto acontece, e acontece mais frequentemente com a mulher, vergonha,
culpa e pecado crescem em paralelo ao desenvolvimento da sua sexualidade, impedindo-
a de apresentar responsividade aos estímulos eróticos, desencadeando uma negação do
desejo quando ele, de fato, existe e uma disfunção de excitabilidade configurada como
insuficiência ou ausência de lubrificação vaginal. Marca, também, profundamente a
mulher, o condicionamento social que lhe impede de ser totalmente livre em seu
desempenho sexual; ela pode apreender que o ser penetrada representa evidência de sua
capacitação física especialmente numa cultura onde o sexo tradicionalmente legítimo é o
sexo reprodutivo. Neste sentido, a inadequação da educação sexual feminina traduz-se
pela aprendizagem da mulher em ter que cumprir o seu dever de servir ao companheiro; o
dever sem prazer então acontece, passa de geração em geração e a mulher se comporta
à semelhança de sua mãe, sua avó, etc.

São, também, condições sócio-culturais que podem se constituir em causalidade de
disfunções sexuais a desinformação sobre sexualidade, o aprendizado insuficiente e
distorcido sobre o próprio corpo, bem como o desconhecimento da fisiologia da resposta
sexual humana. Em algumas culturas a ausência do orgasmo na mulher configura-se em
padrão desejável, um valor a ser mantido; nelas, é óbvio, que é “natural” e frequente a
ocorrência de disfunções orgásmicas. Com a liberação sexual dos últimos tempos,
entretanto, o “direito ao orgasmo” tornou-se uma questão de sobrevivência e até uma
questão política para as mulheres. Neste sentido, não resta a menor dúvida, que o
conhecimento preciso da anatomia e fisiologia do corpo da mulher e do homem são
indispensáveis ao processo de união sexual e realização a dois. No caso do homem, não
parece ser tão acentuada a desinformação como causalidade de disfunções orgásmicas.

Voltando a questão da influência da sociedade na vida do indivíduo ressaltamos
que a mesma tem uma capacidade imensa de modificar, reestruturar e redirecionar
fenômenos biológicos, alterando, dessa forma o seu curso natural e espontâneo. O
acentuado peso conferido pela sociedade (eminentemente machista) ao desempenho
sexual do homem pode fazer com que ele apresente ausência de desejo, de excitação
e de orgasmo, por um lado, ou por outro, uma ânsia em resolver logo o propósito da
relação sexual, resultando em disfunções eréteis, ejaculação precoce ou retardada.
Sendo a ereção e a penetração os grandes símbolos do exercício sexual masculino, ter
o pênis grande (por definição cultural) é super importante para que o homem se realize
sexualmente.

Tanto para o homem como para a mulher há uma série de crendices que, com
maior ou menor força, dependendo do grupo sócio-cultural no qual se desenvolvem, são
fatores que intervêm no desempenho sexual de homens e mulheres causando-lhes
disfunções sexuais. Por exemplo:

- Quanto maior o pênis, maior a capacidade sexual.

O supermercado deve ter mais de uma relação por encontro.
Mulher tem menos apetite sexual do que o homem.
Mulher só se excita na fase reprodutiva.
A mulher deve estar sempre pronta para satisfazer o homem, mas a mulher decente
deve disfarçar sua excitação.
O orgasmo simultâneo indica um relacionamento harmônico e perfeito.
O homem tem o dever de dar o orgasmo à mulher.
A mulher só desenvolve sua capacidade de sentir prazer depois de ser mãe.
Mulheres virgens não têm a mesma necessidade sexual das outras mulheres.
Só a mulher que tem orgasmo vaginal é madura; é imatura ou infantil a que tem
orgasmo clitoridiano.
Quanto mais orgasmos possa ter, tanto mais mulher.
Se a mulher for lenta para atingir o orgasmo deve fingir que conseguiu para agradar ou
prender seu parceiro.
Fantasias sexuais não são permitidas à mulher decente.
Masturbação não é coisa para mulher.
A masturbação em excesso, no homem, o conduz à fraqueza, à insegurança e até à
loucura.
A menopausa, a laqueadura tubária e a histerectomia fazem extinguir a sexualidade
feminina.
A vasectomia e a remoção da próstata assinalam o fim da vida sexual no homem.

Acrescenta-se a elas o poder da mídia, agente formador de opinião, cada vez mais
importante na atualidade, que contribui de modo significativo para a criação e/ou
manutenção de estereótipos sexuais. A valorização sexual reificada pelos meios de
comunicação pode ser causa desencadeante, por exemplo, da ejaculação precoce no
homem. Mas como a ótica machista da busca do prazer pelo prazer é muito forte, alguns
homens nem se consideram disfuncionais por esse aspecto; sentem-se satisfeitos com o
seu desempenho e delegam à mulher o problema dela em não ter orgasmo. Programas e
seriados de TV, comerciais veiculados por revistas, jornais, rádio e televisão, além de
filmes, estabelecem modelos de homem e de mulher a serem internalizados e seguidos e
reafirmam, intencional e subliminarmente, a dicotomia dos papéis de gênero, reservando a
homens e mulheres imagens tradicionalmente construídas: sexo forte / sexo frágil.

Nos últimos anos há inserções diferenciadas em algumas culturas. Em nossa
sociedade, há quem considere que o homem, no momento atual é o sexo frágil –
assustado, obcecado pela realização profissional e pela obrigação de garantir o prazer
feminino. Também a insegurança financeira está afetando diretamente a sua condição de
macho; tanto profissional quanto afetivamente ele não consegue realizar-se e muito
menos dedicar-se, como gostaria, à mulher e a vida familiar. Numa outra direção, o
homem desde o final do século passado, realizado profissionalmente, vem tendo
relacionamentos insatisfatórios com a mulheres por considerar que elas o escolhem por
causa de sua posição profissional.

Mas a nossa experiência como educadora revela que, em maior escala, ainda é a
mulher quem menos se realiza do ponto de vista sexual, embora também acreditemos que
o casal resulte da “união de duas pessoas, de duas realidades bio-psico-sociais distintas,
que devem se encontrar num objetivo comum e em atividades complementares para que
o momento sexual exista” (Silva, 1989, p. 39). Qualquer alteração num desses planos:
orgânico, psicológico e sócio-cultural, de qualquer um dos dois envolvidos na relação
pode inviabilizar uma resposta sexual plena e satisfatória.

Tereza Cristina P. Carvalho Fagundes
Doutora em Educação. Professor adjunto IV. Coordenadora do programa de Educação
Sexual – Departamento I – Instituto de Biologia – Universidade Federal da Bahia. Membro
do Conselho Científico da SBRASH.

 

 

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