sexualidade e emoções

Depressao e Disfuncao Eretiva uma Investigacao da Comorbidade PDF Imprimir E-mail

Depressão e disfunção eretiva são patologias muito comuns. A primeira tem cerca de 15% de prevalência durante toda a vida. Já a prevalência de disfunção eretiva chega a 5% em homens de 40 anos, aumentando para 15 a 25% quando a idade ultrapassa os 65 anos. Apenas os elevados índices de prevalência de ambas as patologias já indicariam uma elevada probabilidade de ocorrer comorbidade. . Mais assustador este quadro se torna quando uma análise mais profunda nos mostra que a alta frequência da comorbidade entre disfunção eretiva e depressão não é apenas casual.

A vida do homem depende de mecanismos básicos para sua conservação, entre eles a iniciativa para agir, seja para defesa, seja para criação, e a capacidade de se reproduzir. A perda da iniciativa leva a uma diminuição da atividade prática, tornando o homem mais sujeito aos fracassos (risco para sua sobrevivência). A dificuldade para se reproduzir tornar impossível a continuidade da vida através dos filhos (risco para a espécie). Sendo assim, patologias em qualquer destas áreas serão um risco para o bem estar do indivíduo, tornado-se mais graves quando da ocorrência de ambas em uma mesma pessoa, ou seja, quando há comorbidade entre depressão e alguma disfunção sexual.

Tanto a depressão quanto a disfunção eretiva são patologias muito freqüentes na sociedade atual. Estima-se que a prevalência da primeira seja de aproximadamente 5 a 15%, quando observado apenas a idade adulta, com incidência duas vezes maior em mulheres. Já a prevalência de disfunção eretiva chega a 5% em homens de quarenta anos, aumentando para 15 a 25% quando a idade ultrapassa os 65 anos. Só pela alta prevalência de ambas já seriam freqüentes os casos de homens deprimidos e com disfunção erétil, sem qualquer relação etiológica entre as duas patologias. Mais assustador este quadro se torna quando uma análise mais profunda nos mostra que alta freqüência da comorbidade entre disfunção eretiva e depressão não é apenas casual, mas que uma pode interferir na gênese da outra, bem como ambas podem ser decorrentes de uma terceira patologia ou secundárias a algum tratamento medicamentoso.

O entendimento desta complexa relação tornará o clínico mais seguro para a correta condução do tratamento, bem como o sucesso no mesmo será mais provável.

Inicialmente é bom que seja esclarecido que a depressão não parece ser uma entidade única, por melhor que possa ter sido categorizada pelos instrumentos diagnósticos atualmente vigentes (DSM-IV e CID 10). Há depressões em que predominam sintomas subjetivos como desesperança, outros onde o que predomina é uma lentificação psicomotora, há aquelas em que ocorre diminuição do apetite e do sono, em outras o inverso é o que acontece. Sabe-se, também, que certos antidepressivos, com características distintas, podem ter um melhor efeito sobre determinado tipo de depressão (por exemplo, os IMAO sobre depressão atípica). Conclui-se, pois, que estamos diante de um quadro clínico composto por várias entidades, distintas, provavelmente com substrato biológico que as diferencie e tendo, cada uma destas entidades, relações específicas com a esfera sexual. Desta forma, determinado “tipo” de depressão pode não ter qualquer influência direta sobre a sexualidade, enquanto outro “tipo” pode estar incontestavelmente ligado a estas disfunções.

Independente da discussão sobre os possíveis subtipos de depressão, que extrapola os nossos objetivos, o certo é que algumas pesquisas têm mostrado que a pessoa deprimida tem mais queixas de diminuição da satisfação sexual do que de diminuição do interesse ou da excitação, o que ainda não encontra explicação no meio científico.

Além da já conhecida diminuição do desejo sexual, algumas pesquisas têm confirmado que o transtorno depressivo maior também está  frequentemente associado à diminuição da função eretiva e diminuição da atividade sexual, sendo que, a disfunção eretiva tem sido observada duas vezes mais em homens deprimidos a que em eutímicos.

Várias pesquisas têm comparado valores de tumescência peniana noturna em homens com e sem transtorno depressivo maior e, apesar de certos resultados discordantes, trabalhos como o de Thase et al. Indicam que a relação entre depressão e disfunção eretiva é importante. Neste trabalho demonstrou-se uma redução significativa no tempo de tumescência peniana noturna e na rigidez peniana em 34 homens deprimidos comparados com grupo controle.

Além do unicamente orgânico, é interessante frisar que um mínimo de desejo sexual auxilia na obtenção de uma ereção direcionada à  atividade sexual, desejo este que está diminuído em indivíduos com sintomas depressivos.

Teoricamente, pessoas que desenvolvem disfunção eretiva devido a um quadro depressivo se beneficiam de tratamento antidepressivo exclusivo. Apesar desta melhora ocorrer na maioria dos casos, o uso de antidepressivos por si só  pode induzir ou piorar sintomas sexuais, devendo o clínico estar atento a este fato.

Alguns autores sugerem uma relação neurofisiológica entre depressão e disfunção eretiva que seria responsável pela maior incidência desta última em homens com transtorno depressivo maior, o que necessita de estudos mais aprofundados.

A relação entre disfunção sexual e algum diagnóstico psiquiátrico já tem sido estudada há muito, e, pelo menos dois estudos tem encontrado importante comorbidade psiquiátrica em pacientes de clínicas para tratamento de disfunções sexuais. Algo em torno de um terço destes pacientes apresentava algum diagnóstico psiquiátrico, principalmente transtornos afetivos (depressão ou transtorno bipolar), ansiosos, ou de personalidade.

Alguns autores também demonstraram que depressão e sentimentos de raiva estavam bastante relacionados com disfunção eretiva.

Vários estudos têm observado uma forte relação entre disfunção eretiva, baixa qualidade de vida e problemas no funcionamento social e ocupacional, fatores também ligados a sintomas depressivos.

Em nossa sociedade, onde a noção de homem está intimamente ligada à noção de virilidade, de capacidade de ter um bom desempenho sexual, a falência deste “poder” (já chamada de impotência) leva a um constrangimento enorme, por vezes a um isolamento e não raramente a comportamentos autodestrutivos, até tentativas de suicídio. Estas atitudes e pensamentos mais relacionados à noção de potência perdida são, psicopatologicamente idênticas a certos sintomas depressivos, contribuindo por vezes para o aparecimento do quadro depressivo completo.

Um estudo recente de Seidmann et al., duplo cego controlado com placebo, conduziu um grupo de 146 homens com diagnóstico de disfunção eretiva e sintomas depressivos não suficientes para o diagnóstico de transtorno depressivo maior pelo DSM-IV, metade dos quais usou entre 50 e 100mg de Sildenafil (Viagra) ao dia durante três meses. Houve melhora significativa de sintomas depressivos e de disfunção eretiva com o tratamento exclusivo com Sildenafil quando comparado com o grupo de controle.

Este resultado, que necessita ser reproduzido, mostra-nos o quanto sintomas depressivos podem ser simplesmente secundários ao quadro disfuncional sexual, e que o tratamento da disfunção eretiva pode ter efeitos positivos sobre estes sintomas.

Os antidepressivos são os medicamentos de eleição para o tratamento da depressão, sendo, porém, bastante heterogêneos quanto à  forma de ação e efeitos colaterais.

Todos os antidepressivos estão associados, em potencial, com efeitos colaterais sexuais. Aproximadamente 30 a 40% dos pacientes em uso de ISRS (a classe de antidepressivos mais utilizada no momento) terão algum tipo de disfunção sexual. Estes efeitos adversos da medicação devem ser pesquisados objetivamente pelo médico, visto que a porcentagem de pacientes que os informa sem terem sido indagados é muito menor do que a real (de aproximadamente 7% para 55% quando perguntado objetivamente).

Como diferentes antidepressivos atuam em diferentes neurotransmissoes, esse estudo deve ser feito separadamente para cada classe, já que distintos são também os seus efeitos sobre a sexualidade.

É preciso ter em mente também que os antidepressivos podem ter dois tipos de efeitos colaterais sexuais: primeiramente por sua ação no SNC, alterando os níveis dos neurotransmissores, mas também por sua ação no SNA (sistema nervoso autônomo), alterando níveis de noradrenalina e acetilcolina e incrementando ou diminuindo ações dos sistemas simpático e parassimpático.

A medicação antidepressiva não deve ser responsabilizada pela disfunção eretiva a menos que certos dados tenham sido esclarecidos. Deve ser pesquisado quando se deu o início da dificuldade sexual, pois como já foi visto, não são raros os casos em que esta se segue a um transtorno depressivo. Deve-se também pesquisar como está  o relacionamento conjugal e se já existiram períodos de dificuldade eretiva no passado, mesmo na ausência de tratamento antidepressivo. Após este cuidadoso estudo pode-se tentar algumas manobras para observar se há melhora na disfunção eretiva como diminuição da dose da medicação ou feriado da droga e, em último caso, troca da classe da medicação antidepressiva. Havendo melhora é certo que a disfunção era devido à medicação psiquiátrica.

Disfunção eretiva tende a ser induzida mais por medicações que tenham forte efeito anticolinérgico como, por exemplo, os antidepressivos tricíclicos (ATC) e os inibidores da monoamino oxidase (IMAO), embora drogas que aumentam os níveis de serotonina como inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) também possam causá-la.

Uma das possíveis classificações dos antidepressivos é a que dá  importância ao tipo de neurotransmissor influenciado. É nesta que nos basearemos para que possamos entender como cada classe de droga age sobre a função sexual, notadamente sobre a fase de excitação.

Depressão e disfunção eretiva sendo ambas causadas por uma terceira doença

Algumas doenças podem causar, no seu curso, sintomas depressivos e sexuais, devendo o clínico estar atento quanto à gênese destes sintomas. Mais comumente sintomas depressivos e dificuldade eretiva são encontrados em endocrinopatas, sendo, porém, também observados em quadros neurológicos. Seis por cento das disfunções eretivas são causadas por endocrinopatias, normalmente devido à diminuição dos níveis de testosterona. Diabetes é o fator endócrino mais importante na etiologia da disfunção eretiva, sendo que 40 a 60% dos pacientes diabéticos apresentam alguma grau desta, não guardando relação com a gravidade da endocrinopatia. No caso específico do diabetes a ação sobre o mecanismo eretivo não se dá via testosterona e sim por vasculopatias ou neuropatias no tecido erétil do pênis.

Outras endocrinopatias podem estar relacionadas com disfunção eretiva, destacando-se o hipotireoidismo, quando crônico (agudamente o hipotireoidismo tende a cursar unicamente com diminuição do desejo sexual); síndrome de Cushing e síndrome de Addison (a primeira pelo aumento dos níveis circulantes de cortisol, a segunda somente se houver diminuição da testosterona). Outras alterações hormonais também podem cursar com diminuição da função eretiva, notadamente a hiperprolactinemia, o aumento dos níveis de hormônio de crescimento (GH) e os hipoginadismos.

Sintomas depressivos também podem estar relacionados com as endocrinopatias, tendo sido já descritos relação entre as síndromes de Cushing e Addison, os transtornos da paratireóide, da tireóide, o hiperaldosteronismo e a hiperprolactinemia com depressão.

Conclui-se, pois, que o surgimento de uma endocrinopatia como, por exemplo, o hipotireoidismo, pode levar à gênese de disfunção eretiva e sintomas depressivos concomitantemente, que tendem a remitir quando do tratamento adequado da endocrinopatia. Mais estudos são necessários quanto a esta comorbidade, porém o clínico de antemão deve estar atento à relação entre estas doenças.

Outras causas médicas podem cursar mais raramente com sintomas depressivos e disfunção eretiva. Deve-se investigar patologias em sistema nervoso central (SNC), como tumores que, dependendo de sua localização, podem levar a ambos os sintomas.

Alcoolismo também deve ser pesquisado, visto haver relação entre este e sintomas depressivos, bem como, através de neuropatias locais, dificuldade eretiva.

Muito raramente, para não dizer nunca, apenas sintomas depressivos e disfunção eretiva são as manifestações da patologia subjacente. Deve-se, pois, pesquisar os demais sinais e sintomas característicos da síndrome ou da doença e, quando necessário, pedir exames complementares. O diagnóstico da patologia de base é fundamental visto que o tratamento da mesma tende a levar à remissão dos sintomas depressivos e sexuais.

A comorbidade entre depressão e disfunção eretiva é muito comum, sendo variadas as suas formas de ocorrência.

O clínico deve estar atento à cronologia da instalação de cada doença para observar se há relação temporal entre ambas e se uma delas pode dever-se à presença inicial da outra. Neste caso sugere-se que seja tratada a doença base, sendo comum a remissão da sintomatologia total.

O uso de psicofármacos e outras medicações também deverá ser investigado, não sendo raro que disfunções eretivas sejam secundárias ao uso de antidepressivos, principalmente aqueles com importante ação anticolinérgica. A utilização de vários outros fármacos pode estar relacionada diretamente tanto à sintomatologia depressiva quanto a dificuldades eretivas, sendo possível que mesmo ambas as patologias sejam precipitadas pelo uso de algumas destas drogas.

Algumas doenças, como o hipotireoidismo, ou lesões em SNC podem estar relacionadas ao aparecimento de disfunções eretivas e sintomas depressivos, devendo o clínico observar outras alterações no exame físico e em exames complementares que surgiram estes quadros. É pouco provável que uma patologia qualquer tenha como únicos sintomas a dificuldade para manter a ereção e correlatos depressivos.

Eventos vitais negativos, dificuldades econômicas e sociais e questões psicológicas podem, sem exceção e por si só, causarem quadros comórbidos de depressão e disfunção eretiva.

Independente da forma de início da comorbidade é muito importante que o clínico seja capaz de diferenciá-los entre si para uma melhor condução do caso. Salienta-se a necessidade de apoio psicológico e, muitas vezes, processos psicoterápicos, visto o impacto negativo que tais vivências, mesmo que temporárias, podem causar no desenvolvimento da pessoa.


Gregory Branco Haertel

Médico Psiquiatra. Terapeuta Sexual formado pela SBRASH.

 

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