sexualidade e emoções

A Pscicossomática do Prazer Feminino PDF Imprimir E-mail
Sex, 19 de Agosto de 2011 02:58

Amparo Caridade
Psicóloga

De que goza e de que sofre o feminino em sua particularidade, em sua cultura, em seu tempo? Essa é uma questão que levanto aqui buscando compreensão para as dimensões da dor e do gozo no universo feminino.

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Dor que é sentida na psiquê, que vai ser expressa no corpo, que talvez se faça sintoma, dor que é silenciada pelo cultural cada vez mais minimizador do sentir.

Contraponho a isso porém a imensa capacidade do feminino para o gozo, fato que é também silenciado. Porque se fala hoje, do dever da

mulher de gozar, mas não de sua potencialidade de gozo. A partir desse silêncio interrogo

Para isso apoio-me no desafio posto pela Psicossomática, de ver o homem como

um ser indivisível, uma integração bio-psíquica, uma interação mente/corpo/cultura/meio

ambiente. Os paradigmas mais recentes evidenciam a importância desse entrelaçamento

e indicam que a natureza deve ser entendida como uma rede dinâmica de eventos

interrelacionados, onde nenhuma parte é mais relevante que qualquer outra. Essas idéias

sugerem uma interconceptualidade que é extremamente necessária ao entendimento do

que se passa na pessoa. O todo tem uma dimensão integradora, porque é na organização

das partes que se dá a harmonia que está na ordem. Uma ordem que procede do

entrelaçamento das partes. Isso implica que uma parte tem a ver com o todo e que esta

O sentir feminino é uma experiência profunda, é uma experiência integrada. O

feminino dói na internalidade, no silêncio de seu mais íntimo, numa ordenação dos

aspectos que compõem a experiência dolorosa. A sensibilidade exaltada no feminino,

possibilita que a pessoa viva dores intensas e prazeres extasiantes. O feminino então dói

e goza com muita intensidade, ao contrário do que é veiculado. Não me refiro aqui apenas

ao feminino que está na mulher. Não. O feminino é um sistema de pensamento, é uma

forma de ser, não é um património da mulher. Um homem a uma mulher habitam o mais

dentro da pessoa. O sentir feminino procede dessa sensibilidade que remete o sujeito ao

De que dói e goza o feminino que está na mulher? Mulher dói e goza das palavras

ditas, não ditas, mal ditas, bem ditas. Dói e goza das linguagens que lhe circundam,

dos gestos feitos e da falta deles; sofre e goza das diferenças em sua nuances de

partilha e desigualdade. Mulher dói de não ser reconhecida como sujeito, como cidadã.

A discriminação dói no corpo e no espírito. Dói do não sentir-se amada, do não poder

amar, do não poder fazer amor. Dói de não ser valorizada em seu crescimento, a do

medo que causa aos homens esse seu crescimento. Mulher dói de ser coisa, pedaço,

bunda, objeto, mercadoria. Quem não viu a dor e o desespero daquela garota asiática ao

ser negociada sua venda com nosso repórter brasileiro? Quem não ouviu seus gritos de

desepero? Quem não viu seu sorriso quando o equívoco se desfez? São algumas das

dores culturais que se abatem sobre a mulher. Mas ela não dói apenas. Diria também

que ela goza. Goza de si mesma como sujeito, como amante, ela goza de estar em

parceria, de apaixonar-se, de maravilhar-se com o outro, de entregar-se, de ser mãe,

mulher, profissional e intelectual. Ela goza de tocar e ser tocada, com doçura e firmeza.

Mulher goza de ser alcançada em seu jeito próprio de viver e amar, de poder perder

tempo olhando, apenas olhando, de consultar o espelho e colorir os lábios, de seduzir,

de fazer coisas simples que podem encantar o cotidiano, como gosta de entender as

transformações do mundo, do ser humano, do fim de século e do próximo milênio que se

aproximam. Basta olhar o número de mulheres que invade as Universidades e os diversos

Plasmando as condutas, a cultura construiu artifícios e jogos de linguagem e

difundiu uma subestima em relação ao feminino. Não deve ser por acaso que na lingua,

dor seja uma palavra feminina e gozo, prazer, sejam palavras masculinas. Que loucura

seja feminina e que juízo seja masculino. Que, mesmo que sejamos 1000 mulheres

reunidas e um só homem, a concordância gramatical tenha de ser no masculino. Todo um

paradigma de superioridade que também criou históricas expressões que insinuam a não

importância do prazer feminino. “Mulher não goza, não precisa de gozo, mulher recatada

não busca o gozo. Gozo é coisa de puta”... Por que tanta necessidade de rechaço,

negação e de silêncio acerca do prazer feminino se a mulher é, por excelência, um ser

sensível e amoroso? Por que terá ela se mantido por tanto tempo nesse lugar?

A cultura também é cruel contra o feminino que está no homem. O modelo de

homem que é imposto expurga de sua experiência qualquer sentimento dessa ordem.

Por isso ele rechaça e menospreza a mulher. Quanto mais periférica, tola, inculta é uma

cultura, mais ela exige que seus homens se precavenham contra sua porção feminina,

que se castrem de sua doçura, o que é lamentável, pois nada mais bonito que o animal

terno que emerge do homem bem resolvido com sua cultura e com seu feminino.

A linguagem da cultura também é marcante no que se refere aos destinos do

prazer feminino. Após quase 2000 anos de silêncio e de negação disso, o discurso da

modernidade anuncia que as mulheres devem gozar - e gozar um gozo múltiplo, sob

pena de que, outros discursos lhe chamem de frígidas, desprazerosas e anorgásmicas.

Dimensões tão íntimas, tão internas do indivíduo, não deveriam ser protegidas da

manipulação do social, não são da competência interna do sujeito? Mas a apropriação

do sexo pela ciência nos trouxe no mínimo o benefício de enquadrá-lo, classificá-

lo, patologizá-lo. A palavra dos pais, da escola, da Igreja, da medicina, do social, da

globalização, se constituem como a lei e conferem um tom valorativo e emocional, que

Gozo e dor não são dados da aparência mas da internalidade, ambos procedem da

fundura do sujeito. A cultura aplaude apenas o prazer periférico, que não deixa marcas.

Gozar não é uma experiência periférica. Doer tampouco. Na Sociedade do Espetáculo,

palco por excelência do parecer, falta aconchego para a interioridade e o sujeito fica

cada vez mais distanciado, tanto de seu transtorno como de sua verdadeira alegria, de

seu êxtase, fato que o manterá na periferia de si mesmo. No entanto é nesse lugar mais

interno que se dão as experiências de maior aprofundamento do ser. O êxtase da partilha

amorosa ou a ferida narcísica de não sentir-se amada, desejada, é algo vivido muito

Haverá diferenças entre a sensibilidade masculina e feminina? Maria Rita Kehl em

A Mínima Diferença, mostra a força que tem a cultura e suas linguagens, nessa questão

das diferenças: “... é a cultura que nos designa destinos diferenciados como homens ou

mulheres”, daí porque, para os lacanianos, “a linguagem é o destino”. A linguagem torna-

se o grande veículo dessa diferenciação. É o que é dito que nos refere como diferentes.

A linguagem é performativa do sujeito, diz Jurandir Freire. A linguagem é performativa

Nasio considera a dor psíquica como “uma lesão do laço íntimo com o outro”. Esse

tipo de dor pode ser vivido tanto pelo homem como pela mulher. Uma certa diferença

perpassa talvez a questão da entrega ao sentir, dimensão que é muito estimulada na

mulher a banida na experiência masculina. Essa diferença passaria por isso que diz

Nasio: “Na fantasia da mulher, o objeto mais precioso, o falo, é o amor que vem do

amado, e não o próprio amado. Assim a angústia especificamente feminina é o medo de

perder o amor e ver-se abandonada” (idem). Aí está a diferença: para a mulher, o falo não

é o pênis, mas o amor, é o sentir-se desejada. Aí ancora-se seu grande gozo.

Cuidar do sofrimento humano nos possibilita a compreensão da dor como o ponto

de ligação entre o corpo e a psiquê. A dor física é intercambiada com o psiquismo, é

representada, simbolizada, significada, de tal modo que a pessoa pode confundir um

conteúdo afetivo doloroso com a própria sensação de dor corporal, tornando difícil

precisar quando se fala de uma dor física ou emocional. Também quando ocorre uma dor

física esta vem tão superinvestida da representação do órgão lesado, que passa a ocupar

grande parte do espaço vital. Isso resulta inclusive num desinvestimento do indivíduo

pelos demais aspectos da vida. O eu é uma instância corporal e psíquica. A dor então

pode ser psicogência, pode surgir sem nenhuma causa orgânica que a justifique.Algumas

dores contemporâneas do feminino perpassam a escuta clínica, como a dor da mulher

que cresceu e debate-se com o medo de ficar só, pela dificuldade de encontrar um

parceiro que aceite e partilhe de seu crescimento, sem sentir-se ameaçado por isso, ou

a dor da disparidade das possibilidades de parceria entre homens e mulheres, sobretudo

quando se trata da mulher idosa. Há quem pense que essa é uma questão resolvida nos

dias atuais. Numa sociedade como a nossa, em que prevalece a aparência, a questão

mantém-se. De modo que, um homem pode encontrar parcerias cada vez mais jovens

enquanto que uma mulher madura pode confrontar-se com o ter de ficar só. Há pouco

tempo Woody Allen, sessentão sedutor, conquistava uma mulher 35 anosmais jovem,

e o fato foi visto com graciosa normalidade. Numa mulher sessentona, o fato cheiraria

a escândalo. Se, como diz R. Alves, “O amor ignora os abismos do tempo”, interrogo-

me sobre o que está acontecendo ao amor neste nosso tempo? Na prática do relacional

fundada no parecer, o tempo inscrito no corpo feminino pesa e discrimina sim. O que é

atraente aos espectadores da sociedade do espetáculo é o que ela estampa, não o que

O mais cômodo para a cultura ante a questão do tempo inscrito no corpo da

mulher, é difundir o equívoco de que, nessa idade, a baixa de estrógenos promove um

desinteresse feminino pela função sexual. Não é isso porém o que dizem as mulheres

em resposta a uma pesquisa realizada pela UERJ, no Rio de Janeiro (Revista Manchete,

janeiro 98). O que elas dizem é que não mantêm vida sexual ativa por falta de parceiros.

A questão dessas mulheres não é desinteresse, mas falta de oportunidade para

interessar-se. Cada tempo, cada cultura, impede a possibilita o acontecer feminino. As

mulheres desse fim de século iniciaram uma desconstrução de modelos opressores do

nosso gozo. É preciso agora não nos perdermos nas malhas das próprias repressões.

Uma multiplicidade de lugares se revelam hoje ao feminino. Faz-se necessário que

nos curemos dos lugares impostos pela cultura, e que transitemos mais levemente por

estes lugares, brincando até com as polaridades, dialetizando as diferenças. Nossa

saúde emocional precisa descolar da história nada lisonjeira à mulher, para decolar

sumo a outras condições de viver. Imagino que nossa cura depende de flexibilidade,

da mobilidade psíquica de cada uma para transitar na agonia e no êxtase dos “tristes e

 

alegres sofrimentos da gente”, como dizia G. Roza.

 

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