sexualidade e emoções

TERAPIA CONJUGAL COM QUEIXAS SEXUAIS PDF Imprimir E-mail
Seg, 14 de Setembro de 2015 14:42

ANTÔNIO ISIDRO DA SILVA

 

A terapia conjugal é um acontecimento terapêutico geralmente complexo caracterizado como instrumento de adequação de pares.

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Ela se distingue da terapia familiar no momento em que o terapeuta se preocupa em observar e modificar os comportamentos que dificultam o relacionamento interpessoal do casal, como um subsistema do contexto familiar.

Muitas variáveis concorrem para a complexidade da terapia conjugal. Por isso é importante, para se ter sucesso na terapia, fazer um levantamento completo da história do casal, identificando todas as áreas ou setores da vida familiar comprometidas ou não, de maneira a auxiliar a compreensão da psicodinâmica de cada um dos cônjuges, dos desejos criados e de como estes desejos são utilizados na relação conjugal, no sentido de encontrarem ou não suas realizações no setor econômico, social e sexual.

Várias são as áreas que interagem como variáveis para o ajustamento ou desajustamento do casal. São elas:

a) econômico-social; onde pode-se verificar a relação de dependência de um e domínio do outro ou disputa pelo poder, levando o casal a desenvolver sérios conflitos e frustrações que prejudicam  a área emocional, criando bloqueios que dificultam a demonstração de afeto, se estendendo a outras áreas da vida familiar.

b) religiosa; muitas vezes esta área é muito importante como fator de união conjugal. Se cada um segue doutrinas religiosas diferentes pode ocorrer um prejuízo no relacionamento conjugal. De acordo com as crenças e valores, o par poderá ter ou não uma integridade das relações interpessoais relacionadas ao sexo.

c) a estrutura da personalidade constitui uma área muito importante para se compreender a relação conjugal. Na maioria das vezes, os casais que se relacionam problematicamente, são formados por indivíduos que buscam o outro no sentido de preencher as áreas ou deficiências da personalidade que possuem ou presumem possuir.

Algumas personalidades com baixa autoestima, autoconceito negativo, sentimento de inferioridade e sentimento de rejeição criam dificuldades nas relações conjugais.

Torna-se importante salientar que estas deficiências são originadas na história familiar. É comum que o indivíduo transfira para a nova família, os problemas vividos pela família de origem. Esses sentimentos não permitem uma relação de igualdade e um se coloca ao lado do outro com exigências, cobranças afetivas, onde cada um possui uma maneira particular de demonstrar e receber afeto.

É claro que cada um tem seus critérios e os utiliza para se considerar amado, importante ou especial. Percebe-se que esses critérios não são satisfeitos começam as perseguições, cobranças, ciúmes e queixas que estrangulam a individualidade e autonomia do outro. A comunicação fica difícil, porque as insatisfações aumentam e um esconde do outro essas insatisfações, criando formas agressivas e nebulosas de comunicação, tornando a relação desgastada pelas frustrações recíprocas.

Dentro da ótica da terapia conjugal com queixas sexuais, parece muito difícil isolar estas duas entidades. Segundo Greene, citado por Helen Singer Kaplan, a falta de comunicação, discussões constantes, necessidades emocionais não satisfeitas, insatisfação sexual, divergências financeiras, desarmonia com os parentes do parceiro, infidelidade, conflito sobre os filhos, mulher dominadora, a parceira suspeitosa constituem a clientela que mais procura aconselhamento conjugal.

Na ordem representada por Greene, a quarta queixa, insatisfação sexual, pode estar relacionada a outras queixas. Ele relaciona alguns dados estatísticos onde mostra que 75% dos casos que buscaram ajustamento conjugal tinham queixas sexuais significativas e, ao contrário, dos casais que procuraram ajuda para queixas sexuais, 70% tinha queixas conjugais.

Fazendo abstrações sobre estes dados, podemos dizer que 95% dos casais requer terapia conjugal e sexual simultaneamente e talvez só 5% possa ser tratado isoladamente com terapia conjugal ou sexual.

Helen S. Kaplan apresenta três categorias onde as terapias conjugal e sexual apresentam fatores comuns envolvidos:

1. quando a disfunção sexual produz discórdia conjugal secundária, a terapia sexual é indicada com a colaboração dos parceiros.

2. casais que vivem discórdias conjugais que afetam as funções sexuais e a terapia conjugal pode melhorar as relações sexuais.

3. casais com discórdias conjugais, onde existem hostilidades severas. Neste grupo a terapia sexual só será indicada se houver a cooperação entre os parceiros, o que em geral não acontece.

Essas citações de Kaplan têm um verdadeiro significado prático para quem trabalha com terapia sexual, isto porque o terapeuta não esclarecido poderá introduzir o casal em uma terapia sexual sem que o mesmo esteja preparado para isso, e por conseguinte, esta tentativa ampliaria a dificuldade no relacionamento interpessoal ou levaria o par à descrença deste tipo de terapia.

Estas dificuldades muitas vezes são mais bem esclarecidas com a apresentação de casos.

O caso que citarei se caracteriza pela disfunção sexual que causou uma série de discórdias conjugais relativamente severas.

O casal me procurou indicado por outro que já estivera em terapia comigo. Queixavam-se de dificuldades conjugais. Eles brigavam acusando-se mutuamente por motivos aparentemente fúteis e irrelevantes. Ele acrescentava na queixa que o problema era sexual e ela negava, afirmando ser falta de compreensão e desamor dele.

Realizaram-se sessões individuais e conjuntas, levantando-se a história individual do casal.

Analisando-se a história individual, encontramos algumas dificuldades pessoais na organização da personalidade oriunda da família de origem que são marcantes para explicar as dificuldades que estavam encontrando no relacionamento.

Ela tinha 25 anos, curso superior, filha única entre 3 irmãos, de uma família tradicional, preparada para ter sexo só depois do casamento. Na sua história houve um treinamento de bloqueio na comunicação afetiva não permitindo toques. Durante o namoro procura fugir das situações que pudessem propiciar qualquer aproximação íntima com o namorado.

Ele tinha 28 anos, curso superior, sendo o 7º filho dentre oito de uma família de nível econômico inferior ao dela, onde também não havia comunicação afetiva, mas ele recebeu atenções especiais por ser o único filho formado. Antes disso sofreu disputas afetivas dos pais com uma irmã mais velha, ativando um sentimento de rejeição.

Ambos buscavam encontrar no casamento compreensão, carinho, companheirismo, maior profundidade nas relações afetivas e sexuais e serem especiais. O que eles estavam conseguindo, após alguns meses de casamento, era que as relações se desenvolvessem de maneira hostil, competitiva, com agressões verbais e tensão permanente de ambos. Ele sentindo-se desamado, desvalorizado e descaracterizado como objeto de amor. Ela sentindo-se controlada, desamada, incompreendida, humilhada e tolhida em sua individualidade acusando-o de egocêntrico.

Quando casaram-se ela era virgem e nunca havia experimentado o orgasmo porque não se masturbava e evitava carícias íntimas durante o namoro. Ele procurava aceitar, mas às vezes brigavam por isso, ele entendia que esta negação não deveria existir, já que iriam se casar. Sentia-se rejeitado e emburrava-se.

Nas primeiras tentativas sexuais ela disse ter sentido muitas dores, retardando ao máximo a penetração, mas conseguiram.

Na relação conjugal após o casamento ele, por ter sido proibido de ter relações sexuais antes, empenhava-se ao máximo para aproveitar todos os momentos que estavam livres de outras pessoas para estarem juntos tendo relações sexuais.

E as dificuldades começaram no momento em que ele procurava com maior frequência ter relações e ela consequentemente passou a esquivar-se. Com isso ele começou a cobrar demonstrações de amor, e no momento em que ela não dizia que gostava e não demonstrava através da receptividade sexual, ele então duvidava deste sentimento.

A partir daí, bloqueada para ter relações sexuais, ela o fez sentir-se rejeitado pela não receptividade, e ele desenvolveu duas atitudes comuns nas relações conjugais:

1º) ele desenvolveu crise de ciúmes, passando a observar todos os comportamentos dela com outras pessoas, inclusive com os familiares.

2º) procurou coloca-la em situações difíceis que pudessem caracterizar alguma demonstração de amor. Por exemplo: fazia com que ela deixasse de visitar a família ou enfrentasse motéis (coisa que ela achava desagradável).

À medida que o ciúme aumentava e que estas solicitações de amor iam crescendo, ela passou a sentir-se cada vez mais bloqueada e forçada na relação sexual, entendendo que não estava sendo compreendida nem tão pouco amada, porque, segundo ela, se fosse amada teria melhores condições de, aos poucos, sair da situação de bloqueio. Desta forma, como ela não tinha uma facilidade de manifestar carinho, toque, passou a ter uma certa ansiedade durante as situações íntimas que pudessem levar a uma situação sexual.

O marido, em relacionamentos anteriores, não tivera dificuldade no controle ejaculatório e suas parceiras atingiam o orgasmo no intercurso sexual. Ele se queixava da situação sexual do seu casamento porque sua mulher não se interessava pelo sexo. Parecia-lhe muito tensa. Lubrificava-se durante as carícias mas sempre se queixava de dor, não atingia o orgasmo e não aceitava a manipulação do marido sobre o clitóris. Essa atitude de desinteresse pelo sexo fez o marido se sentir desamado e as transações foram deteriorando-se até o ponto em que ele passou a observar os comportamentos dela com pessoas do sexo oposto e a manifestar ciúmes. Com o tempo, diante de cobranças e exigências de relações sexuais, ela passou a ter dificuldades em se lubrificar (excitar), passando a fugir de situações de aproximação afetiva que pudessem levar à relação sexual.

Essa situação tornou-se insustentável para eles e muitas vezes manifestaram o desejo de se separarem. Ela engravidou e houve uma trégua entre o casal em relação ao sexo, mas a hostilidade permaneceu.

Ela acreditava que com o parto as dores poderiam cessar e facilitaria as relações, mas isso não aconteceu. A crise conjugal voltou mais forte e a separação, segundo eles, era uma questão de tempo. Em entrevistas separadas eles diziam que era impossível continuar com esse casamento. Embora a inadequação sexual tenha sido a causa da discórdia conjugal, não era possível se pensar em terapia sexual sem resolver os problemas conjugais criados pela disfunção.

O esforço terapêutico no caso voltou-se para o acerto das relações interpessoais do casal, com apoio individual para as dificuldades emocionais criadas pelo desajuste conjugal e os conflitos intrapsíquicos que dificultam a cooperação para terapia das disfunções. O esclarecimento foi necessário para promover o franqueamento da comunicação e a psicodinâmica da discórdia, além de favorecer a espontaneidade e aceitação exigidas na adequação sexual. Foi desenvolvido treino de assertividade para acertas os comportamentos inassertivos e criar um clima de cooperação para a terapia sexual; desenvolveu-se, também, acerto de concepções erradas, principalmente para a parceira que apresentava uma inibição do desejo sexual, no sentido de melhorar a receptividade, aumentando a motivação para o sexo. É necessário dizer que outros procedimentos foram utilizados para auxiliar o ajustamento conjugal, tais como: relaxamento e dessensibilização sistemática para eliminar a ansiedade da aproximação sexual que a deixava muito tensa.

Os procedimentos, para a terapia de adequação sexual, só foram possíveis depois que as hostilidades foram eliminadas, possibilitando um clima de cooperação e espontaneidade sexual.

Com este caso nos parece muito claro que a terapia sexual só será indicada quando houver um clima de espontaneidade de respostas eróticas e permissividade para trocas de carícias e toques que culminem na relação sexual. Enquanto houver desarmonia, competições, hostilidades entre os parceiros é impossível se pensar em terapia sexual.

 

 

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