sexualidade e emoções

MULHER NEGRA: DISCRIMINAÇÃO E SEXUALIDADE PDF Imprimir E-mail
Seg, 14 de Setembro de 2015 14:58

THEREZA SANTOS

 

A hierarquia imposta pela sociedade brasileira, a mulher negra desde o período da escravidão tem a vida norteada pela Servidão, Submissão e consequente Aceitação.

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A sexualidade da escrava para o senhor estava livre de regras morais, alheia a procriação, desnudada de toda série de funções que eram reservadas a mulher branca, para ser apropriada num único aspecto: objeto sexual.

Segundo Sonia Maria Giacomini,

A exaltação sexual da escrava e o culto à sensualidade da mulata, tão caros a nossa cultura branca e machista, vistos sobre um novo prisma mais do que explicar os ataques sexuais, as escravas parecem cumprir uma função justificadora.

A sensualidade da mulher negra sempre foi tratada de maneira estereotipada e superficial. Considerada lasciva, sensual e imoral, esta condição transforma a mulher negra na única culpada por sua transformação em objeto sexual.

Ontem, objeto de prazer e sevícias dos senhores de escravos, hoje, a única mudança foi de dono; continuamos levados a viver por séculos nossa sexualidade no silêncio sem direito a desejos e prazeres, e continuamos ainda assistindo os homens à dissertarem sem nenhuma dúvida ou constrangimento as técnica de nos transformarem em fêmeas felizes e saciadas, e ao mesmo tempo utilizando-nos e explorando-nos.

Nós, mulheres negras nunca tivemos direito de pensar ou querer desejos, anseios ou vontades, ou sequer o direito ao nosso próprio corpo. O único direito que nos foi dado a aprender foi o das obrigações, ou seja, lavar, cozinhar, limpar, lavar, cozinhar, limpar e milhões de vezes lavar, cozinhar, limpar. Não necessariamente nesta ordem.

O feminismo sempre foi encarado como uma questão menor, com o argumento de que em uma sociedade subdesenvolvida não tem relevância a questão da mulher. Em consequência, as mulheres brancas na luta pelos seus direitos, várias vezes foram classificadas como histéricas. Nós negras não fomos brindadas nem com esta qualificação porque nossos gritos não incomodam, dado que a sociedade convencionou que a mulher negra não é nada, não somos nem questão secundária. Além da discriminação de gênero, enfrentamos a discriminação de raça e social.

Um dado importante deve ser colocado; apesar de algumas questões comuns na luta das mulheres, assim como a discriminação de gênero, que nos tornaria aliadas naturais, o movimento feminista não conseguiu até hoje dar qualquer passo para superar a questão racial e social, o que o torna profundamente racista. Em consequência, continuamos sendo tratadas como massa de manobra e vistas como objetos e não sujeitos. Na verdade o movimento feminista reproduz contra as mulheres negras todos os preconceitos da sociedade.

Quero lembrar uma charge do Maurício Pestana que traduz bem esta realidade:

Uma sala, um grupo de mulheres brancas em volta de uma mesa, uma mulher branca de pé, e uma negra também de pé com uma vassoura na mão. A mulher de pé diz para a negra:

“- Maria! Você limpa a casa, faz o almoço, lava a roupa, leve as crianças na escola e depois senta aqui para participar da reunião.”

Perdão, esqueci de dizer que a negra de vassoura na mão também era mulher!

O Conselho da Condição Feminina do Estado de São Paulo desenvolveu um projeto sobre a realidade da mulher no contexto socioeconômico, político e cultural no final da década da mulher. Éramos na época a única representante da mulher negra. Como a realidade da mulher negra não estava sendo comtemplada no projeto fizemos a reivindicação, recebemos como resposta que entraríamos no geral, como não aceitamos, foi necessário muita briga para incluir a mulher negra no projeto. A partir deste momento, fizemos durante 5 (cinco) anos um levantamento nas publicações feministas para descobrir como a questão específica da mulher negra estava sendo tratada, e o resultado foi a descoberta do total descaso do Movimento Feminista sobre a especificidade da mulher negra.

Continuamos hoje sendo subtemas para o Movimento Feminista, no entanto somos mais de 50% da população feminina do país. Frente aos problemas decorrentes do racismo que atinge este contingente, a variável cor deveria se introduzir como componente indispensável na configuração do movimento feminista.

Frente a esta realidade, ficam cada vez mais claros os níveis de contradição entre o feminismo negro e branco. Por outro lado, viemos de uma experiência histórica diferenciada, marcada pela perda do poder de dominação do homem negro por sua situação de escravo, pela sujeição ao opressor e pelo exercício de diferentes estratégias de resistência.

Uma pergunta merece ser colocada: qual o papel da mulher negra numa sociedade hierarquizada em classes econômicas sociologicamente estruturadas como valores masculinos, arianistas e capitalista?

Temos claro que não cabe uma visão feminista do movimento de mulheres negras de oposição ou distanciamento do homem negro, pois combater o racismo é prioritário, por outro lado isto não impede que tenhamos consciência dos efeitos perversos em seus diversos aspectos que a ideologia machista tem para a luta do movimento negro em geral na medida em que o sexismo tanto quanto o racismo atua como componente de massacre da mulher negra assim como gera a fragmentação da identidade racial.

A luta da mulher negra é uma luta contundente porquanto se apoia em elementos discriminatórios triplamente distanciados da mística humana, por isto a história da mulher negra tem sido uma história de silêncios entremeados de gritos mudos de contestação, porque só agora nos foi possível compreender o direito que temos de nos rebelar contra a tripla opressão de raça, gênero e classe que congrega raízes de sujeição, e hoje buscamos nosso caminho e lutamos para marcar nosso espaço como mulheres donas dos nossos desejos, de nosso corpo, do nosso sexo.

 

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