sexualidade e emoções

O Casal Infertil, Sentimentos e Sexualidade PDF Imprimir E-mail

Este texto convida à reflexão sobre a infertilidade conjugal. Contextualiza a dificuldade no momento atual, ressaltando a dor psicológica e o desamparo que o casal infértil carrega frequentemente, não apenas pela simples ausência do filho, mas também pelas repercussões que o fato ocasiona na família de origem e na rede social. . Sem direito a revelar tal dor, o casal é estimulado a dissimulá-la, assim, com a vida estagnada, sem direito a outros planos, diante de tantos compromissos financeiros, adiam-se outras metas, o que traz mudanças e frustrações evidentes, inclusive na vivência da sexualidade.

A sexualidade humana pode ser exercida de várias formas, mas, a rigor, existem três funções básicas: reprodução, prazer e comunicação interpessoal. Dentro dessas funções, as pessoas encontram formas individuais para exercê-la, nem sempre bem aceitas pelo grupo ao qual pertencem.

É a reprodução sua função mais elementar, a mais conhecida e aceita socialmente, talvez por depender dela a própria perpetuação da espécie. Embora exercendo o sexo uma função biológica, é a adaptação sociocultural, juntamente com a percepção que o indivíduo abstrai dela, que determinará o modo como sua sexualidade será vivenciada.

A busca pela melhoria no desempenho sexual é historicamente masculina, possivelmente impulsionada pela concepção imperativa do “sexo-reprodução”, uma vez que a resposta sexual masculina é fundamental para a procriação.

Uma falha “humana” ou até “mecânica” é, em nossa sociedade, muito mais aceita do que uma incapacidade física que impeça um casal de gerar e ver nascer seus próprios filhos.

Mesmo com a taxa de fecundidade em baixa, o exemplo das avós e mães que tiveram o número de filhos que pretendiam ou ultrapassaram suas próprias expectativas está presente, fortalecendo-se a ideia de que a qualquer tempo não se terá dificuldade em engravidar. No entanto, na reprodução, nem sempre é a idade o fator limitante.

Muitas vezes a constatação de uma dificuldade orgânica, anteriormente não percebida e tratada, leva à frustração por impossibilitar a realização do sonho de ter seus próprios filhos. Antes impensável, a reprodução assistida (RA) é hoje uma alternativa segura, embora onerosa, que oferece, dependendo do caso, um índice de sucesso em torno dos 30%. Embora sendo consenso que o casal necessita de apoio psicológico, não é exigida a presença do psicólogo nas clínicas de reprodução assistida no Brasil para lhes dar assistência à  probabilidade de 70% de insucesso.

Desde o nascimento do primeiro bebê de proveta, na Inglaterra, em 1978, a sociedade tenta adaptar-se à realidade de as crianças geradas, agora, em laboratório, longe das relações sexuais, com todas as implicações éticas e morais que envolvem o tema (TESTART, 1998). Aprimoram-se espantosamente o conhecimento técnico possibilitando vencer desafios impensáveis, enquanto o estudo do comportamento psicológico do casal assistido em RA ainda “engatinha”.

Neste sentido, são raras as publicações científicas sobre a psicologia de casais inférteis, estando a socialização desse conhecimento restrita a modestos encontros científicos, embora o meio médico atribua sempre ao estado psicológico do casal, fator relevante, principalmente em se tratando da necessidade de, diante de um fracasso, reagir positivamente.

A ausência de procriação define infertilidade. O casal infértil é  aquele que não teve filhos, seja qual tenha sido a causa (voluntária, fisiológica, etc.).

Maldonado (1985) cita a maternidade e a paternidade como fases do desenvolvimento psicológico. Lembra ainda um aspecto histórico relevante: “[...] Desde muitos séculos, a fecundidade é tida como benção divina, ao passo que a infertilidade é tida como castigo”.

Tal preocupação encontra-se descrita nos livros sagrados. Observa-se em Gênesis 9.1: “Deus os abençoou Noé e seus filhos e disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”. Ainda no Gênesis, 17.6: “E Abraão caiu com a face por terra. Deus lhe falou assim: [...] Eu te tornarei extremamente fecundo, de ti farei nações e reis sairão de ti” (BÍBLIA, 1973).

A dor ocultada

Um casal que vive a ausência involuntária de filhos, muito provavelmente sofre. O sofrimento pode não ser apenas do par, mas também da família e dos amigos.

A sociedade interfere ao observar que os filhos de um casal ainda “não foram encomendados” e sem saber do real motivo procura convencê-lo de que a hora é esta! Por um lado, frequentemente, a família e os amigos, bem intencionados, são muitas vezes insensíveis e magoam com comentários e questionamentos.

Geralmente as pessoas passam por um tratamento prolongado para a infertilidade, sentem-se isoladas de outras e, mesmo desejosas de partilhar a questão, tornam-se mais reclusas quando tratamentos controvertidos estão sendo realizados.

A relação do par

Embora seja consenso que o bem estar psicológico do casal e a harmonia do par seja relevante para a superação da dificuldade em procriar, há poucos registros na literatura relativos à dor de não poder procriar.

É comum mulheres relatarem que se sentem culpadas ou responsáveis pela infertilidade do par mesmo quando o marido é o parceiro que apresenta a dificuldade física. Não é raro o divórcio ser lembrado como alternativa freqüente.

Fertilidade versus Impoetência

Sem sombra de dúvida, este equívoco é um peso maior para os homens, já que a mulher não necessita necessariamente de qualquer das fases da resposta sexual humana para engravidar, ao contrário do homem. No entanto, a mulher muitas vezes assume a dificuldade de ereção do parceiro como sendo uma questão pessoal. Passa a acreditar que ela não é capaz de despertar seu interesse, de provocar uma ereção.

Um número pequeno de casais enfrenta com naturalidade a infertilidade e a falta de filhos e constrói uma vida a dois de forma centrada e feliz. Uns encontram na adoção possibilidade eficiente de dar prosseguimento à vida. Outros se submetem à dificuldade de forma obsessiva, muitas vezes desgovernam suas vidas pessoais e a relação a dois. Colocam no projeto do “filho idealizado” todo sentido de suas vidas, frustrando-se mês a mês numa tentativa em vão de finalmente ter um filho em seus braços. O temor da possível infidelidade oriunda da incapacidade de gerar um filho surge.

A RA não afeta apenas o financeiro. Há um desgaste orgânico, por conta de incontáveis injeções hormonais e seus inconvenientes “efeitos colaterais”. Para alguns casais interfere na redistribuição de prioridades, de adiar a compra de um bem, ou as tão desejadas férias. Queixam-se de estarem com a vida “empacada” na medida em que outros projetos pessoais são adiados como o investimento num novo emprego, o simples ingresso numa academia de ginástica.

Um fracasso pode desfazer sonhos, abalar a estabilidade do par ou amadurecê-lo. Um resultado positivo pode devolver o sentido da vida e também a família extensa.

Uma coisa é consenso: ninguém consegue entrar e sair de uma experiência em RA da mesma forma. Alegres ou frustrados, mais próximos ou mais distantes, confiantes ou desesperançados, normalmente o processo induz ao estresse do casal.

A verdade é que, mesmo sendo um processo oneroso e incômodo, desgastante físico e psicologicamente, é crescente o número de casais que buscam a RA como forma de conseguir uma gravidez.

Talvez a preocupação da equipe seja posicionar o casal de forma realista para lidar com as chances de fracasso, sabidamente maiores que as do sucesso. É preciso ter em mente que já tão “avaliado”  e frustrado, o casal neste momento necessita de reforços positivos para se manter no “estado de animação suspensa”. A fórmula de como manter um casal “motivado” para participar do processo e, ao mesmo tempo, preparado para lidar com um (muito) provável resultado negativo, parece ser o grande desafio para os técnicos que trabalham hoje com RA.

O sexo é uma expressão da vida. Tenso e ansioso, o casal, evidentemente modifica o jogo erótico sexual. Privar o par da espontaneidade, talvez seja sua maior penalidade. Manter um coito preocupado com o dia do ciclo, esconder a mágoa de ontem e buscar um contato físico porque “hoje é o dia fértil”, a obrigação não apenas com a ereção, mas também em ejacular, são alguns dos fatores que precisam ser lembrados.

Infelizmente, em meio a tantos índices, exames, cifras, técnicas e opiniões diversas, encontra-se acuado o casal, necessitando urgente de um olhar sensível, mais humano e acolhedor.


Vitória Menezes

Psicóloga. Pós-graduada em Educação Sexual pelo CEUB/CESEX. Pós-graduada em Psicologia Familiar e Realidade Social pela FAFIRE. Especialista em Sexologia Clínica pela FLASSES.

 

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